| A caminhada de Coringa para 'uma outra vida' |
|
|
|
|
Sobre Coringa. Esse é o objetivo desse pequeno e experimental texto ('paper'). Ele pretende focar, descrevendo suas psicopatologias (numa dimensão psico-social), e com isso reforçando a idéia de ser belíssima a interpretação do ator Ledger, nascido na Austrália e falecido em 2008 nos EUA aos 28 anos de idade, em seu apartamento em Manhattan, de uma overdose acidental de medicamentos. Nesse filme o papel de 'Coringa' de Ledger é tratado, por ele, enquanto profissional de 'interpretação-ator', como um esquizofrênico (dupla personalidade, por exemplo). Há nele um maníaco, compondo um 'Quadro Clínico', bem estadunidense, de um 'serial killer' (assombrado e, cheios de tiques, como se estivesse dopado de anfetaminas – que é um psicofármaco agitante e que produz distorções da realidade, percebida com mais coragem e mais alegria; estereotipias descontroladas; olhos arregalados; prontidão a uma boa briga etc.), associado a um 'terrorista' cujos ideais não é uma Pátria (Estado) e suas ideologias sejam de que natureza for (militares; religiosas; empresariais etc.). Nada advindo de uma oficialidade – algo do Estado/ Nação. Coringa tem uma Pátria/ Estado/ Nação 'Nada-Oficial' (no sentido sociológico), mas no sentido do 'mínimo ego/ Self/ eu' - uma pátria subjetiva, consciente, não-consciente e inconscientemente ensimesmada; infantilizada; que pega birras como crianças e, alguns adolescentes mimados por alguns pais (que legitimam a pátria), criando e produzindo 'psicopatas potenciais' a que estamos submetidos. Nesse personagem, magistral e espetacularmente vivido por Heather, encontramos a psicopatia advinda de um Estado Totalitário (Fascismo) cuja gênese parte de um 'imaginário lugar egóico': um 'si-mesmo-encapsulado'. Quando Coringa coloca tal 'pulsão a agir/sentir', ele produz profundas feridas no social e no moralismo estabelecido pela ideologia dominante nos Estados Unidos da América, e por extensão, do Brasil (pelas marcas dos EUA em quase todo o mundo - não apenas o Ocidental). Mas quem produziu as feridas no seu rosto? Que maquiagem estampou esse seu outro lado? De que lado ele está? Tanto que Coringa é um personagem estadunidense, mas que contraditóriamente ele não 'se amarra em dinheiro não', mas em 'fogo aberto'. Isso de se 'amar o dinheiro' é a (pré)ocupação dos Estados Unidos, comandado pelo sistema econômico hoje denominado de Neoliberal, onde o consumismo e os prazeres imediatos são subjetividades que se 'afloram-de-sentido'. Coringa é um vadio a partir daí. A ele não interessa o outro. Alteridade é uma palavra eliminada a partir da construção em 'si-mesmo' da psicopatia. Pelo menos o personagem não se encosta nos reflexos espelhares (especulares) de uma pessoa que 'gosta' e ou reconhece o outro como parte integrante de sua constituição e cidadania. Cidadania é outro termo que ele apagou de vez por todas. Nenhum dos dois seres são cidadãos e ou pregam isso. Um ilude. Outra mostra o corpo para a sangria. Um finge. Outro é pura verdade que recusamos enxergar. Ambos nos enganam. Ambos nos subornam. Ambos nos envergonham. Coringa tem um único interesse: pelo 'eu-mesmo' ('mínimo self' caracterizado fundamentalmente pelo 'egoísmo'). O Coringa de Ledger está perfeito e em sintonia com o conceito de Doença Mental dentro de uma Cultura (no sentido antropológico e psico-social), pois é ela (a cultura) que 'determina' (ordena) o que é ou não saudável; normal e anormal. A Cultura nessa seara não permite trocas e nem enfeixamentos (e menos enviezamentos). Bandidos e mocinhos são estabelecidos e classificados como se na vida todos fossem assim. Entretanto, Coringa é assim um sujeito com características positivas, que na escola infantil, a professora poderia ter detectado e trabalhado a partir delas. Mas tem personalidades psicopatas que nem isso permite. Por exemplo: ele é um perfeccionista. Ele executa seu desejo – que obviamente tem um planejamento e uma avaliação. Ele é criativo – para o maléfico. Ele faz de suas cicatrizes seu charme e sua sedução, tornando-se hiper-masculino, sem se configurar em sadomasoquista estereotipado (mas um real); ele, por ser um perfeito sujeito 'sui generís', quer, com uma 'vontade de sentido infernal' muito forte, 'apenas' (?) ver/ sentir com imenso e denso prazer o mundo se 'danar' – e que ele vá junto com o 'bonzinho' Batman (vivido pelo ator Christian Bale). Mas o Coringa nessa narrativa não é um ser (sendo) isento do/no/ com o mundo. Estando no mundo, podemos (ou não) fazer alianças constantes com todos os tipos humanos – dos mais inócuos, comuns, sorrateiros e tenebrosos homens e mulheres. Coringa é claro no seu modo de ser (sendo) si mesmo no cotidiano do mundo dos EUA: ele fez e faz pactos com muitos 'humanos- Luciferes' - aquele ser (sendo) do inferno; um dominador atroz. Mas Coringa, 'ele-mesmo', é um estranho (?) 'clown'? Nada disso. Ele foi construído (inventado) para animar o 'ódio guardado e que ainda não foi jogado nas relações interpessoais' de espectadores submissos aos demandes do cotidiano alienado. Eu acredito e defendo que parte do cotidiano inventivo e criativo deve segurar a barra dos ódios. Um dos papeis de um filme é esse: acalmar o animal (instinto) que vive dentro de nós, no mundo – o 'mínimo eu' é instaurado nesse mundo ideológico, político etc. Trata-se da função escapista do cinema que produz dentro de nós os mecanismos de defesa nos aliviando e nos reconduzindo sempre as subjetividades e comportamentos de cidadania. No cotidiano estamos impregnados de criatividades e alegrias, mas também estamos marcados de modo profundo pela relação entre o 'eu sei' e 'você não sabe e nunca irá saber'; 'eu sou o maior' e 'você é o menor'; 'sou sadio' e 'você doente'; 'sou rico' e 'você pobre'; 'sou lindo' e você 'feio'; 'sou jovem' e 'você velho'; 'sou heterossexual' e 'você 'viado' ' etc. Esse animador Clown só deseja. Ele é puro desejo. Um sujeito sem rédeas; uma fazenda sem cercas – logo psico-socialmente perigoso. Algo como: Meu desejo é uma ordem. Um desmande direcionado a outras gêneses (desejos de outros humanos; nem sempre tão maléficos assim, mas que provoca-nos trazee a tona o nosso Lúcifer mais odiado e temido). Coringa é 'desejo-desmande'; uma desumanidade sem dúvida - se é que em Gotham City se sabe o que é Humanismo. Batman saberá? Coringa! O que seu desejo demanda 'ver-sentir-agir' sua casa pegar fogo. O fogo o inferno – ódio. A casa dele pode ser o 'circo' do 'palhaço-do-medo' que pode ser, na película, um simbólico país neoliberal. Trata-se de uma casa da insatisfação; uma casa que não é dele, e nem é dele é 'aquele lugar'. Mas Coringa não consegue ir embora desse lugar-tempo. As marcas ou cicatrizes trazidas no seu rosto dão bem este tom psicológico de 'mínimo eu' ao caso (clínico?), e ao mesmo tempo as marcas indeléveis do social, do histórico, do econômico que classifica os diferentes e as suas diferenças (o si mesmo junto ao 'outro-no-mundo') marginalizando-os e inventando modos de diagnósticos e tratamentos - e prevenções (pelo viés da submissão). Coringa pelos Manuais classificatórios psiquiátricos, dos tipos DSM-IV (nascidos de um conceito de daqueles que, como é bem definido no próprio filme, "não ligam pra dinheiro, só querem ver o circo pegar fogo"). Uma classificação cujo personagem se define: "- Sou um homem de hábitos simples... (...) Gosto de dinamite, pólvora e gasolina". O sorriso acompanha a fala para ser decorada pelo espectador (especialmente os fãs) e repetida aos sete ventos. O sorriso d'Ele é onipotente; arrogante; complexo e híbrido. Lábios marcados por cicatrizes e que ele impediu-os de serem beijados. Ele sabe formar 'frases-sínteses' para ser entendido de modo mais imediato. Quando detido pelo Comissário Gordon, ele responde: " – 'Senhor' Comissário, eu lá tenho cara de alguém que faz 'planos'? ". Heath Ledger morreu muito jovem para os ditames do cinema e méis artísticos para se constituir em estrela. Recém separado e com uma filha. Revelava-se na vida real ser um pai apaixonado pela filha. Deixa como testamento dois brilhantes momentos: o de Ennis Del Mar (Brokeback Mountain) e em 'Batman' – mas tem outros filmes seus em que seu brilhantismo superou as mesmices dos personagens. Quando aparece, ele rouba cena a cena dos outros personagens do filme. Ele nos rouba, em um corpo de ator que representava o bem e mal com tamanho sentido, que saíamos sempre dos seus percalços embriagados e seduzidos. Diz (a imprensa em geral) que esse personagem o impregnou tanto, que ele (a pessoa do ator), mesmo depois de terminada as filmagens, levava consigo a dor imensa de ser sendo Coringa. Trate-se de '(co)mover' dentro de si o destino de odiar o mundo, as coisas deste mesmo mundo, o outro e a 'si-mesmo'. Quer maior sofrimento do que 'sobreviver' (viver em cima; sobre) uma vida em que se sente constantemente culpado e por isso obrigado a cometer delitos (com isso chicoteando-se simbolicamente), para então 'descansar sangrando' e, então, novamente partir para 'outra'? Outra vida – é o destino, no filme, de Coringa. Por isso o personagem se define na voz e corpo do ator Ledger " - Sou um homem de palavra!". Esquizofrenicamente de duas palavras; palavras de modos de ser sendo si mesmo no mundo esquizóide; bipartido. O mundo nunca foi hospedeiro – dizemos nós, os existencialistas.
Hiran Pinel pesquisa e ensina Cinema, Educação e Existencialismo; Doutor em Psicologia pelo IP/ USP; Pós-Graduado em 'Educação Artística' concentrando-se em Cinema & Educação Social; Orientador dos cursos de Mestrado e de Doutorado UFES/ CE/ PPGE. Foi ator de três curtas-metragens com direção de João Porto.
|
| Última atualização em Qua, 30 de Julho de 2008 11:23 |







Esse pequeno 'paper' é sobre o filme "Batman, Cavaleiro das Trevas" (EUA; 2008; direção de Christopher Nolan). No filme o falecido ator de 'BROKEBACK MOUNTAIN' (seu melhor filme; dos Estados Unidos da América - EUA; datado de 2005; direção de Ang Lee), o ícone e mito HEATH LEDGER é a grande estrela e, já está sendo cotado, pelos mais renomados críticos de cinema, para receber o Oscar póstumo de ator coadjuvante.